Era o meu décimo aniversário, um dia muito importante para mim. Lembro-me de estar orgulhosa por ter enchido a segunda mão de dedos. Mas, ao mesmo tempo, uma ansiedade invadia meu peito: onde estaria minha mãe que até aquela hora não tinha chegado do trabalho? Até no dia do meu aniversário ela resolveu fazer hora extra?
O frio, característico de junho, me deprimia. Sempre fui assim: tímida, um pouco triste, talvez cansada, desde menina. Exatamente o oposto do que acham que sabem sobre mim.
Procurei o relógio, como quem busca refúgio nas horas, esperando que o tempo não passasse. Mas não pense que aquela era uma das situações em que fechamos os olhos desejando que se guarde o momento na memória. Não era o meu caso! Eu queria muito que ela viesse dar os parabéns pelo meu dia. Por isso, e só por isso, o tempo não poderia passar depressa.
Sentei-me, derrotada, no sofá da sala e perguntei a meu avô o que passava na televisão. Como de costume, ele assistia a algo que não me interessava. Então, quando ia me preparar para dormir, ouvi o carro chegando. Detive-me por alguns instantes sem saber se, aborrecida, eu iria pro meu quarto dormir ou se, entusiasmada, aguardaria meu tão esperado abraço de aniversário. E, mais uma vez, aguardei!
Ao entrar, vi que minha mãe tinha uma jaqueta jeans, que logo reconheci ser de minha tia, jogada em seus braços e ombros. Achei estranho, perguntei o que aconteceu e qual não foi minha surpresa quando minha tia removeu a jaqueta revelando um lindo ursinho de pelúcia. Fiquei radiante e fui pegar o meu novo brinquedo, mas ao retirar o ursinho mole e quentinho de seus braços percebi que era um filhotinho de cachorro. Ela era branquinha de orelhas “café-com-leite” e tão quietinha que parecia, de fato, um brinquedo. Tratei de arrumar uma caixa de sapato, que forrei com panos e lá a depositei com todo cuidado.
Quem diria que aquela cachorrinha mansa e imóvel, alguns meses depois, estaria carregando a ponta do papel higiênico por toda a casa?
Aquele foi o melhor presente de toda a minha vida e, talvez, por tantas vezes buscar refúgio no relógio aquela noite, a memória ficou gravada, como quem fecha os olhos esperando que o momento nunca acabe.
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