Eu sempre tive saudades de coisas de "não sei quando", de algo que não sei o nome...
Quando criança, gostava de deitar ao sol, no quintal, e ficava por longos momentos assistindo às nuvens que passavam. Adorava o plano de fundo azul e as formas brancas abstratas. De tanto olhar, não eram tão abstratas assim. Já eram coelhos e cachorros, maçãs e piratas...
E me divertia assim: só. Gostava de estar só, gostava da solidão dos pensamentos. Aliás, eu gostava das atividades solitárias.
Apesar dos desencontros, meu avô teve uma grande participação na minha infância. Foi ele quem me ensinou a ver desenho em nuvens...
Ah... mas, para aqueles olhos, tudo era desenhado ou desenhável!
Com as mãos firmes, traçava, com lápis, o grosso papel e o deixava todo quadriculado. Na prancheta alta, eu esticava os pezinhos para a visão alcançar todos os passos e ele, em silêncio, me olhava de volta.
Fui crescendo e perguntando... ele ensinou que eu devia me pautar pelas retas, me pautar pelos pequenos espaços formados pelo quadriculado, pois, o que eu fizesse naquele pequeno quadrado regeria os outros espaços formando, assim, a figura total. O quadro completo!
E não é assim a vida? O que ele me ensinou, ali, pequena, desenhando meu primeiro faisão, foi uma lição de vida! Aprendi com ele, naquele momento, que a cada passo eu estaria montando uma parte de mim, no qual, lá na frente, seria questão de afastar um pouco o olhar para enxergar o quadro que pintei.
Pautei a vida como quem pinta quadros! Enxerguei em pequenos traços, objetivei, criei metas. Alcancei algumas... Não sou uma menina muito obediente!
Briguei, rebelei, falei, calei, frustrei... mas, hoje, percebo que as atividades que mais gosto são as que aprendi com ele.
Foi meu avô quem me ensinou a montar quebra-cabeças. A andar de bicicleta sem rodinhas.
E, agora, velhinho, a visão já não o alcança mais... Tantos quadros nas paredes, tantos espalhados entre amigos e vizinhos...
Já não há mais a prancheta, o 6B, a borracha verde, o giz de cera, os lápis de cor... Já não há mais o silêncio da criação. Já, tudo fora criado por ele. Os olhos cansaram das cores e movimentos e, agora, deixam por conta dos ouvidos a tarefa de lhe guiar.
Mas uma coisa que me ensinou: deixar que meus ouvidos me guiem! Usar do silêncio para aprender e para criar.
Hoje, meu avô diz para mim que a melhor parte de não enxergar é que, para ele, eu sempre serei da forma como se lembra. Para ele, nunca vou envelhecer.
Já, eu... não tenho a mesma sorte!